segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Aizomê

O que você espera de um restaurante japonês?

Devemos lembrar que a comida nipônica vai muito além do sushi e sashimi. A cozinha “quente”, quando bem executada, costuma ser esplendorosa.

Serei eterno órfão do A1, restaurante japa com pinta de boteco, com nada mais que um balcão, por trás do qual Mestre Shin cozinhava com o maior talento. Lá tinha rabada com ponzu, língua e outras delícias.

Hoje os japas que mais freqüento são o Bueno e o Kaburá. Em nenhum dos dois o forte é sushi. Inclusive, no Bueno não serve sushi e nem saquê. Lá o forte é shochu e barriga de porco!

O Kinoshita costumava ter, além dos excepcionais sushis, uma cozinha primorosa. Mas nas TRÊS últimas visitas minhas nem o sushi estava bom. Saí de lá meio sem graça, chateado e com a impressão que meu amigo Murakami, por algumas vezes, dá muita liberdade para sua jovem brigada que nem sempre sabe a aproveitar da melhor maneira. Inconstância não é bom em nenhum lugar, mas a tolerância diminui em um dos restaurantes mais caros do Brasil, que deveria ser mais profissional, em minha insignificante opinião.

Meu sushi preferido se serve no Shin-Zushi que, aliás, tem uma cozinha quente muito respeitável. Mas nem sempre tenho grana suficiente para lá comer, de maneira que quando quero apenas sushi e sashimi vou ao Sendai, na Liberdade e ao Hamatyo, em Pinheiros. Ambos são muito, mas muito bons.

E um japa, com uma pegada mais contemporânea, que também tenha sushi e sashimi e seja mais regular (e não tão caro) como o Kinoshita? Tem?

O grande Shin, do saudoso e já citado A1 comanda com maestria o Aizomê.

É um barato sentar no balcão, sempre do lado do ótimo sushiman Sassaki e comer o menu degustação, acompanhado de uma garrafa de bom shochu.

Em minha última visita, além do gordo sushi de bijupirá e o indispensável sashimi de torô, comi outras coisas memoráveis.

Como o ceviche de robalo com pitaya e o linguado com uni e shissô crocante.









É necessário mencionar que o Shin é o único japa macho o suficiente para NÃO servir salmão em sua casa e só por isso já tem um crédito enorme!

Da cozinha saiu um saboroso tataki de mignon com foie gras e figo e um excepcional tempurá de baiacu. Além do já tradicional magret de pato com pimenta verde.

Mas o melhor da noite foram as suculentas vieiras com lichias, sobre uma cama de purê de batata com wasabi.

Pra beber, reinou soberano um shochu de sobá poderosíssimo.

As sobremesas, como o cheese cake e o tiramisú de tofu fecharam de maneira perfeita a refeição!

O menu degustação completíssimo sai por 150 pratas e tem ingredientes e técnica que fazem valer a pena o investimento. Se não quiser gastar essa quantia a dica é ir no almoço, que é bem mais em conta.

Se você gosta de um bom japa, faça sua reserva no balcão (peça ao lugar ao lado do Sassaki) e se divirta!

Aizomê
Rua Fernão Cardim, 39 (entre a Joaquim Eugênio de Lima e a Brigadeiro)
Fone - 3251-5157

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Che Bárbaro

Sempre gostei do Martin Fierro, restaurante sem afetação onde sentava no quintal da frente e comia gostosas empanadas antes de uma saborosa carne, acompanhada de Serramalte gelada e uma gostosa brisa em direção ao meu rosto.

Acontece que a carne de lá ficou muito irregular. Ir ao Martin Fierro, hoje, é um programa de alto risco. Dificilmente comerás bem!

E aí fiquei órfão de lugar que sirva um bom bife de chorizo. Embora o Arturito e o Chou sirvam um excelente ojo de bife, sentia falta de um lugar que além disso faça um chimichurri bacana e uma empanada levinha e bem-temperada.

Na busca por um bom argentino, me frustrei várias vezes, como no Pobre Juan, que chegou a me servir, como entrada, um presunto cru já previamente fatiado e armazenado no refrigerador do bar, e também no simpático Leôncio, onde comi uma das carnes mais duras de todo o mundo.

Alguns amigos me recomendaram o Che, na Vila Olímpia. Acontece que, para eu me locomover a este bairro, preciso de muitos motivos.

Ainda mais com um restaurante do mesmo grupo, o Che Bárbaro, localizado à Rua Harmonia, ao lado do Jacaré Grill, na Vila Madalena.

O que me tornou freguês deste lugar?

Em princípio, o que me conquistou foi o horário de funcionamento ininterrupto do almoço ao jantar. Por muitas vezes, saio do Sinhá por volta das dezesseis horas morto de fome e a dificuldade de achar um lugar para almoçar nesse horário é enorme. No Che Bárbaro, me recebem bem e tenho o restaurante praticamente só para mim!

O couvert acompanha um chimichurri muito fresco que é o meu preferido em São Paulo.

Empanadas leves, bem-feitas, especialmente a de carne, que tem um tempero quase caseiro, abrem a refeição de uma maneira estimulante.

Depois, peço matambre ou suculentas mollejas, tão difíceis de achar na cidade. Estas só perdem para as do Arturito.

As costelas, tanto bovina quanto suína, satisfazem bem dois gauleses.

E o bife de chorizo é dos mais macios e saborosos. Muito bom mesmo e vale a visita.

Recomendo como acompanhamento as batatas fritas à provençale, que são sequinhas e bem-temperadas.

Se quiser um vinho branco, o mesmo será servido na temperatura correta. Esse ano, fui a três lugares muito mais caros que este que me serviram vinho branco com temperatura de tinto. Pra não ser antipático, em todos os casos pedi para o garçom gelar mais um pouco a garrafa e o resultado foi um vinho na temperatura ideal apenas após a refeição. Por vezes, me bate uma raiva deste amadorismo.

Mas, voltando ao simpático lugar, se preferir uma cerveja, a boa notícia é que rola uma Heineken de ampola bastante gelada.

Como sobremesa, um excelente crepe com o melhor doce de leite argentino.

Como nada é perfeito, recomendo que NÃO se peça o horrível café espresso, que é aguado, queimado, mal-tirado e com um aroma inesquecível, no pior sentido da expressão.

Apesar do parágrafo acima, se somarmos tudo, o Che Bárbaro vale muito a pena e é o restaurante argentino que adotei em São Paulo.

E não irei à Vila Olímpia conhecer o Che!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sangue Bom

Quer fazer uma boa ação?

Como você já sabe, o dramaturgo Mario Bortolotto foi covardemente baleado por uns crackeiros filhos da puta dentro de um espaço cultural, o Parlapatões.

Ele já sobreviveu a duas operações delicadas e até está consciente, se comunicou com a filha e tudo, embora ainda respire por aparelhos.

Acontece que o cara perdeu metade do sangue e precisa AGORA de doações.

Que tal fazer uma boa ação doando sangue pro artista?

Não é uma bela maneira de dizer não à violência?

Informações lá na Santa Casa, que fica na Rua Cesário Motta Jr, 112, aqui em Santa Cecília.

Mas não esqueça de dar o nome do paciente!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Força Bortolotto!

Meu melhor amigo de adolescência foi o Caulfield. Incrível como achava que poderíamos mudar o mundo, com o perdão da comum expressão.

O tempo me deu certo amargor, muitos kilos e, principalmente, consciência de minha insignificância.

Após ler um pouco mais, até hoje, meu autor preferido é o Salinger, e, se eu pudesse escolher ser um personagem da literatura, sem dúvidas seria o Seymour Glass, aquele que vê adiante.

Mas, como escrevi acima, não tenho essa ambição e nem competência para fazer qualquer diferença. Se eu tivesse um talento, um dom, já teria feito algo grande.

E, uma vez consciente disso, não tenho o menor problema em ser igual a 99,9% da população mundial. Nem todos podem ser como Beethoven... E tudo bem!

A contribuição que procuro fazer para a comunidade é servir comida gostosa e despretensiosa em meu simples restaurante e escrever essas implacáveis linhas com fluência e espírito crítico.

Dou duro todos os dias! Claro que o melhor possível nem sempre é o suficiente para ser bom, mas é o que tenho para oferecer.

Minha geração é carente de referências mais próximas e recentemente descobri um cara de talento incrível, tanto para a literatura, quanto para levar a vida, e confesso que bate uma vergonha por eu não o ter descoberto isso antes.

Além de acessar seu excelente blog todos os dias, já vi do cara quatro peças e li um livro. Tudo muito bom!

Bortolotto é um "boêmio profissa". É um daqueles caras quietos que fica no canto do bar, sossegado com seu uísque, que pode ser um Green label ou até um, parafraseando o artista, "passport para o Inferno".

Esse ano o encontrei várias vezes nos botequins da Roosevelt, e apesar de até ter escrito um texto sobre ele, nunca sequer o cumprimentei, por timidez mesmo. E respeito. Sei lá quantos malas ele aguenta durante a noitada.

Ou seja, em minha curta trajetória de vida, na adolescência, fui o melhor amigo do Caulfield e adoraria ser ainda o Seymour, mas agora não sou amigo e nem quero ser como ele, no entanto admiro uma pessoa real. Bortolotto é um herói possível.

Na última madrugada de sexta para sábado, Marião disse não à violência que assola a cidade, reagindo corajosamente a um grupo de babacas que deu uma coronhada em uma atriz, numa tentativa patética de assalto a um simples bar na Roosevelt, onde artistas boêmios apenas tomavam uma cerveja. E foi baleado por isso, da maneira mais covarde possível.

Pro Inferno com esses marginais, pois Marião é um sobrevivente, e além de resistir às balas, já passou por duas delicadas operações (perdeu metade do sangue!) e no momento se recupera na UTI.

Tenho certeza que ele sairá dessa e escreverá sobre mais esse golpe que a vida lhe deu. Transformará a tragédia pessoal em arte, pois tem talento e riqueza de espírito de sobra pra isso.
Não à violência!

E um brinde de uísque do bom à recuperação do grande Mário Bortolotto!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Ráscal x Mancini

Para mim, restaurante bom é aquele que agrada do couvert ao café. Tenho asco por chef que diz “que não é de doce” ou que “nespresso qualquer um tira”, entre outros absurdos.

Na semana passada, após um excelente jantar no Shundi & Tomodachi, com sushis e sashimis feitos de maneira artesanal pelo mestre Koji, eu e Talitha caminhamos até o PJ Clarke´s para comer o cheese cake, que até então era a única lembrança realmente boa que eu tinha da lanchonete cujo hambúrguer costuma vir fora do ponto e em uma visita nem o tinha.

Entramos e pedimos duas Heineken que pareciam tiradas direto da caixa, de tão quentes. O razoável crumble de maçã veio acompanhado por um sorvete “de creme” nojento, de coloração amarelo vômito, que só não estava mais gorduroso que o outrora gostoso cheese cake, que ou trocaram a receita, ou erraram feio. E o café espresso tava com gosto de resto de pó que fica encrustado na boca da máquina.

Mas escrevia sobre detalhes, não é mesmo? Veja bem, em minha última visita à sempre irregular PJ Clarke´s nem comi o hambúrguer, mas tudo deu tão errado que não voltarei lá tão cedo!

E pizza? O que te faz ir à uma pizzaria? E qual a sua preferida?

Certo que o principal motivo que me move à uma é a pizza, e a minha preferida atualmente se serve lá na Rua Avanhadava, 34.

Massa fina e crocante com a borda um pouco mais grossa, excelente molho de tomate fresco e cobertura na medida certa, sem exageros. Muito boa mesmo!

Acontece que minha paciência com a pizzaria é cada vez menor. Primeiro pela horrorosa e breguíssima música ao vivo, que além de se espalhar pelo salão como um câncer, te obriga a gastar oito reais de couvert, o que faz uma boa diferença na conta, já que tudo lá, inclusive a pizza, é bem caro.

E pra beber? Cerveja, só as horríveis long necks Bohemia e Becks, sendo que essa cobram a bagatela de 12 reais. O serviço de coquetelaria é uma loteria e a carta de vinhos completamente datada. Refrigerante, só Pepsi.

Como sobremesa tem um abominável tiramisú, daqueles feitos com creme de leite como base, que só não é pior que o café espresso, servido sempre sem creme.

E por tudo isso, fica difícil freqüentar a espelunca...

Um ouro lugar que tem uma pizza com as mesmas características, mas me agrada bastante é o Ráscal.

E o legal é que se quiser se servir do excelente Buffet de antepastos e saladas, pode pedir uma brotinho, sem acréscimo na conta.

Pra beber? Se quiser cerveja, tem Heineken. Se preferir refrigerante, tem coca light (ninguém pergunta se “pode ser zero, senhor?”).

A carta de vinhos é ótima e só melhora.

Como sobremesa, a melhor torta de maçã da cidade, que lembra bem a da Vovó Donalda.

Café, entre os três disponíveis, nenhum presta. Isso eles ficam devendo.

Mas se pesarmos tudo, entre Ráscal e Walter Mancini Pizzaria, fico com o Ráscal. Por mil a zero!

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Alex Atala

Sempre me despertou curiosidade a história de Alex Atala. O cara fala por aí que pintava paredes na Europa, mas nunca falou o tempo que fez isso. E se ele fez UM serviço apenas? Ninguém sabe...

Tão incerta quanto a carreira de pintor é sua experiência como cozinheiro na Europa. Quantos anos trabalhou por lá? Com quem? Ninguém sabe...

O problema é quando alguém como ele, que tem esse passado nebuloso, fala do trabalho dos outros.

Veja o que ele escreveu sobre a grande Mara Salles e o seu excelente Tordesilhas, em uma entrevista à revista Trip, em abril de 2006:
“Um grande restaurante, acho a Mara uma figura fundamental, uma tremenda pioneira. A CASA TEM LIMITAÇÕES NO REFINAMENTO E NO INVESTIMENTO. A MARA PRECISAVA DE UM SÓCIO PARA BANCÁ-LA DE VERDADE”.

O Tordesilhas é um dos meus restaurantes preferidos e, em minha opinião, serve uma comida muito refinada em um ambiente bastante sofisticado.

Mas talvez refinamento e investimento para o Alex sejam aquela catástrofe titânica em forma de um caixote jeca onde sócios, ao confiar em seu trabalho, investiram intermináveis milhões de dólares, alguns anos após esta infeliz declaração.

Outra coisa: Mara Salles é uma estudiosa que trabalha arduamente há décadas e conhece ingredientes e técnicas culinárias brasileiras como nenhum outro cozinheiro.

O que a “banca” não é um sócio italiano, e sim o seu belíssimo trabalho que deixa os admiradores da gastronomia brasileira muito orgulhosos.

De maneira que seria uma prova de humildade da parte do Alex reavaliar esta infeliz declaração com um mínimo de autocrítica, já que o mesmo precisou de sócio-investidor para bancá-lo e veja só no que deu!

Se enxerga, Alex!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Eu não tenho a menor paciência para...

Manteiga dura no couvert

Isso me irrita desde pequeno, quando brigava com as bolinhas de manteiga do couvert. Hoje em dia, restaurantes de grife insistem em ter uma manteiga duríssima que geralmente acompanha pães terceirizados e frios. Aliás, poucos couverts valem a pena na cidade!

Restaurante caríssimo

Por exemplo, entendo que o Fasano tem uma excelência em serviço e comida sem concorrência no Brasil e coisa e tal... Ok... Mas convenhamos que R$ 410 por um prato de massa com trufas brancas é exagero, não? E o menu trufado do metido Piselli, superior à R$ 1000, sem vinhos? Melhor ir pra Piemonte comer trufa fresca a rodo!

Sobremesa meia-boca

Para mim, o chef tem a obrigação de servir uma boa sobremesa, coisa rara de encontrar, especialmente em São Paulo. Se não sabe ou não gosta de fazer, que contrate um confeiteiro! O que não dá mais é pra pagar mais de vinte paus por diferentes versões de horrorosos bolinhos de chocolate com seus vagabundos sorvetes de “creme”.

Onipresença do café Nespresso

O Brasil tem alguns dos melhores grãos e blends do mundo, só que dá um certo trabalho tirar um bom café de uma boa máquina. Qual a solução que os chefs preguiçosos arrumaram? Trabalhar com o (caro) Nespresso, que não tem gosto de porra nenhuma, mas sai sempre igual, independente de quem tire!

Brigada desinformada

Não quero uma aula sobre o menu. Mas seria bom se o garçom tivesse um pouco de noção do que faz no salão. Outro dia perguntei a um do que era feito o pão “especial” que ELE OFERECEU no couvert, e o mesmo respondeu que “é de farinha mesmo”, após consultar o não mais informado maitre. Tenha dó!

Som ambiente inapropriado

Tem lugar que chega ao cúmulo de rolar um CD inteiro no aparelho. Será que pensam que ninguém se irrita com isso? Pra não falar dos lounges genéricos que assolam as caixas acústicas dos restaurantes e chicoteiam meus tímpanos!

Lugar para ver e ser visto

Vou a um restaurante para comer. Aliás, frequento o Spot menos do que gostaria porque o mesmo está sempre lotado de aspirantes a Big Brother mais preocupados com seus penteados do que com a comida. E não tenho o menor interesse em conhecer o Shaya e evito a Rua Amaury Jr.

Técnica por técnica

Não tenho nada contra a tecnologia. A comida tem que ser boa, acima de tudo. Não importa como foi feita. Não quero explicações. Uma das coisas que tenho menos interesse em provar é a esfera de feijoada. Menos, gente, menos... Técnica só faz sentido se utilizada para o produto, e não para exibicionismo...

Manobrista

Já perdi a conta das vezes em que saí do restaurante e ao perguntar para o manobrista o porquê do meu carro estar na rua, já que paguei para o mesmo ficar no estacionamento, ele responder “que é para agilizar”. Agilizar o quê, cara pálida? Eu só quero que o serviço pelo qual eu paguei seja executado!