quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Paris Zero x Paraguai 6

A @colorina é uma nova velha amiga, e tem o gosto muito parecido com o meu. Tenho saído bastante com ela e seu marido, o @razev. Ambos são bons de copo e de garfo. Companhia ótima e excelente papo. Na semana passada, em uma noite bem divertida, ela me falou sobre uma visita sua ao Paris 6 e sobre esse texto que escreveu em seu antigo blog. Aliás, puta texto bom!

http://ultimaceia.wordpress.com/2007/03/26/paris-6-2/

Contou também a história de sua volta ao restaurante. Gostei tanto que pedi a ela que escrevesse sobre o acontecido, e ela me presenteou com essa excelente crônica.

E se trata de um presente sim, já que esse modesto espaço chega aos três anos de vida no próximo sábado.

@colorina faz questão de alertar que não é crítica gastronômica (como eu também não sou. e nem jornalista) e que o ocorrido rolou há uns meses.

Mas o que vale é a história! Novas participações virão, provavelmente já na próxima semana.

Espero que curtam tanto quanto eu, a crônica que segue, da mais nova colaboradora do Papo de Boteco!



Paris Zero x Paraguai 6


Cedo tive minha iniciação alcoólica. Meu pai molhava minha chupeta no copo de cerveja e minha avó não achava mau as crianças beberem um tantinho assim de vinho.

O drinque da minha adolescência foi porradinha: três dedos da gloriosa vodca Baikal em meio copo de soda limonada vagabunda. Parece uma receita simples mas exige coragem, porque a magia da mistura só se completa com uma boa joelhada no copo, pra fazer a bebida ferver.

E no tédio das noites do interior, acompanhada da Baikal, com o joelho roxo de tanto porrar copos de requeijão, eu sonhava com a sofisticação alcoólica dos bares de São Paulo, a cidade que nunca dorme, o lugar pra se comer e beber de tudo e a qualquer hora, diziam na televisão.

Os anos se passaram, saí da roça e ampliei meus conhecimentos etílicos. Aprendi até o que é um Bellini, e tomei vários bons, inclusive na cidade em que foi inventado. E numa madrugada de tédio em São Paulo, há alguns meses atrás, resolvi sair em busca de um Bellini, finalmente participar da sofisticada boêmia paulistana.

Mas caipira ingênua que às vezes ainda sou, resolvi dar uma segunda chance ao Paris 6. Quase 1 da manhã, poucas pessoas. Mesmo assim a bebida demorou tanto que pude assistir à refeição inteira da mesa vizinha. Até que foi divertido adivinhar se o que tinham pedido era um filé de truta Vanderlei Luxemburgo ou um salmão Edson Celulari. Sim, os pratos são batizados com nomes de famosos. Mas se o Bellini leva o nome de um artista italiano, por que não uma coxinha de rã a Zilú Camargo?

Distraída com rã da Zilú não percebi o garçom tinha servido a minha bebida. Fiquei surpresa ao encontrá-la ali na minha mesa, toda rosa, era um Bellini rosa-choque, da cor do batom da moça que comia o que parecia ser um entrecôte a Ronnie Von. Alguns Bellinis levam um pouco de cereja, é verdade, e já vi alguns mais rosados, outros mais amarelinhos, mas nenhum naquele tom fosforescente.

Bom, pra quem passou anos tomando vodca Baikal, por que não um Bellini da Barbie? Porque o gosto era horrível, sintético como o gosto dos remédios e mais enjoativo que o perfume daquela senhora da minha frente, que se deliciava com um filé a Dalton Vigh.

O garçom foi solidário, também achou suspeita a cor da bebida e levou pra averiguar. Voltou 20 minutos depois pra me devolver a mesma taça: “Hoje o nosso Bellini está assim mesmo.” Hoje?! “É. Só tem champanhe rosé. E o pêssego acabou, usamos essência.” Me espantei com tamanha licença poética. Aquilo não era uma releitura, era uma falsificação criminosa. Um Bellini made in Paraguay. Em pleno Paris 6, um Bellini do Paraguay! Essência de pêssego? “É. Se a senhora quiser peço pra ele colocar mais.” Fui obrigada a recusar tamanha gentileza.

Sóbria, tive que encarar mais bom tempo de espera até conseguir pagar a conta. É verdade que me embriaguei um pouco lendo as mensagens de artistas espalhados pelas paredes. E não é que aqueles autógrafos todos continham uma revelação? Eles me fizeram entender que o Paris 6 nada mais é do que uma cantina, um parente próximo do Lellis, só que tristemente fantasiado de bistrô parisiense.

Naquela noite descobri também o quanto eram dignas as minhas noitadas de vodca e porradinha e fiquei com saudades da simplicidade alcoólica do interior, longe das coqueteleiras de prata, das dicas dos enólogos e da criatividade dos mixologistas.

@colorina

13 comentários:

Alexandra disse...

hauihauhauhauaauauhauahhahauhahua, lugar errado, hora errada, garçon errado, barman errado, tudo errado. o texto: efervescente.

Anônimo disse...

Só uma crítica: a porradinha deve ser feita nos finados copos de extrato de tomate, assim dá pra tomar de uma golada só...

Anvil disse...

Copo de extrato é coisa de caipira da cidade grande. No interior nóis bebe e só não usemo jarra porque dói o joeio.

Pedro Henrique disse...

JB,

Olha só o pessoal do Issa lembrando de você, em matéria do estadão:


http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,pequenos-grandes-mestes,611306,0.htm

Anônimo disse...

Já fiquei muito com o joelho roxo por culpa da porradinha...

André disse...

Já fui lá ,para não mais voltar.Engraçadíssimo o texto.

mnz disse...

JB, apesar de vc não ser crítico, poderia fazer uma resenha de "restaurantes familiares" (aqueles q o prato individual serve até 4 pessoas!). acho algo mto regional, bem típico da nossa cultura gastronômica. aqui em SP gosto mto do Degas, do Senzala, do Ilha (dá pra ver q moro na zona oeste, hehehe).

mas pela cidade tem várias opções bacanas, com preços mto honestos!

bom, sou amigo do Mobi e da Má e sempre dou uma xeretada por aqui pra pegar uma belas dicas.. :)

um abraço!

jb disse...

pedro,

vi o jornal.

muito gentil da parte de dona margarida e haraguchi-san.

andré,

também não tenho boas lembranças do paris zero.

melhor é não voltar mesmo!

mnz,

adoro comida em travessa!

sei que não é brasileiro, mas considero o ton hoi imbatível nessa categoria!

e valeu pelas visitas.

seja sempre muito bem vindo!

abraços!

Verdelone disse...

Perfeito.
Um puta texto.
Eu não tomaria e não pagaria.
Abçs
CIA DOS BOTECOS - www.ciadosbotecos.blogspot.com

Anônimo disse...

Julinho....comente a lista divulgada da Veja...dos melhores....logico que é tudo vendido...mas sempre...aparece um outro outro razoável....

isabella disse...

gente, e eu aqui, passada?

AMO o paris 6, sempre fui bem atendida e comi delícias...!

fiquei chocada com isso tudo. mas, enfim, em todo caso, eu chamaria o dono. não o conheço, mas ele é doidjo no twitter... Falo que sou follower e exijo explicação... hahaha...

jb disse...

isabella,

tudo bem?

enviei o texto pra o seo isaac, via twitter mesmo, e ele foi bem gentil, embora não tenha se desculpado.

abraço!

andrereissantos disse...

Copo americano wins. parabéns pelo(s) textos e pela sinceridade. jb e colorina, keep it up!