Como escrevi no post anterior, meus dias não tem sido muito fáceis. Acompanho minha mãe no Seo Camilo, onde tento dormir quase todas noites. O processo é lento, doloroso e exige paciência oriental.
Comer e beber? Alterno breves saídas em lugares das ruínas da Pompéia com idas aos bares/restaurantes/izakayas de coração.
Na verdade, independente de meus problemas pessoais, fato é que tenho cada vez menos paciência para os mais novos endereços meia boca da cidade.
Mas, como esse balcão completa inacreditáveis quatro anos hoje, resolvi celebrar com breve texto sobre outro balcão - bem especial - que conheci nessa semana, e gostei muito, mas muito. Muito mesmo. Muitão.
Um dos grandes cozinheiros da cidade - Kuroda-san, do Bueno - teve a brilhante iniciativa de comprar pequeno e antigo bar, ali ao lado, na Rua Fagundes, 220.
Dentro, O balcão com nove ou dez cadeiras e duas mesas pequenas alegram o salão de iluminação agradavelmente escura. Pra que mais?
Abre às dezoito da tarde e em noites mais animadas fecha às cinco da manhã. Para os mais empolgados, rola festivo karaokê. Tímido que sou, prefiro ficar no canto do balcão, observando o movimento silenciosamente.Com muita sorte, dá para ver formosas damas interpretando lindas canções românticas em performances memoráveis!
Ao chegar, é preciso apertar a campainha. Logo Arita-san te recebe com largo sorriso, para felicidade geral de todos envolvidos.
Vinte e cinco dinheiros dão direito a uma cerveja e aos três ou quatro otoshis do dia, que sempre são bons. Costuma ter, por exemplo, delicioso tofu, receita do pai de Kuroda-san. Também pode pintar nirá em conserva e pepino com missô apimentado. Além do obrigatório amendoim.
A pouca - porém muito boa - comida acompanha perfeitamente shochu ou uísque. Na real, considero esse balcão ideal para encher o latão de maneira monumental e monstruosa.
Lembro aqui que não sou alcóolatra. Já passei dessa fase há tempos! Sou alcóolico e tenho muito orgulho disso. Tacinha de vinho é para amadores.
Antes de ir embora, ainda dá pra encarar gloriosa maçã verde, que te redime de qualquer besteira que se tenha feito, no auge da inevitável euforia. Eu mesmo tive certa sensação de ter pago mico, numa noite qualquer e a maçã me salvou. Se não lembro, não fiz.
Como é costume no bairro, não se aceita cartão. Leve bufunfa em espécie. Mas os preços são bem amigáveis.
Kuroda-san me falou que reformará o logradouro, que logo ficará mais habitável. Se bem que, pra mim, está excelente exatamente assim. Especialmente a iluminação. Fico na torcida para que grandes mudanças não ocorram.
Oremos.
Que esse puta balcão do caralho tenha longa e próspera vida!
Banzai!
13 comentários:
Oi Chefe boa tarde queria cumprimentá-lo pelos quatro anos de espaço tão bacana que nos cativou, meus Parabéns de coração!O aniversário é seu mas quem ganha o presente somos nós. Desejo também muita força nesse momento e que a Sra. sua Mãe melhore logo o quanto antes. Um abraço Daniel Pedro!
valeu, daniel!
abração!
Parabéns e tudo de bom para você e sua mãe. Obrigado pelos comentários, dignos do saudoso Apicius, do JB.
Uma crônica do saudoso Apicius:
" Me perguntam, às vezes, quão imprudente sou. Se adentro pelos restaurantes, de barriga empinada e dedo em riste dizendo: 'Tratem-me bem, senão...' E, ainda, se pago. Comerei tudo aquilo de que falo? Será verdade que...?
Lamento: é. Bem mais interessante eu seria se fosse picaresco e algo matreiro. Mas, que posso fazer? É a preguiça.
Só escrevo o que vi. Como e pago. Nem sou melhor tratado que o comum dos fregueses, pois não me faço anunciar.
Mas todas as regras têm exceções. Em alguns restaurantes sinto que me conhecem. Eu outros, sei que capricham muito além da medida, para me confortar. E em vários lugares, certamente, me acontecem coisas deleitosas mais do que o normal.
Acho, no entanto, que por muito que uma casa tente, nunca consegue ser mais do que é. Por exemplo, leitor desafinado - se te pagassem alguns milhões, cantaria?
Por certo.
Mas cantarias direito?
Muito temo que não. E se dobrassem a oferta, tranformando os reais em euros, dólares, ienes, pérolas, ouro, um alvará para negociatas? Continuarias tão desafinado quanto antes. Só que mais infeliz.
O mesmo acontece com os restaurantes. Por mais que tentem agradar, só conseguem fazê-lo na medida que podem. Não vão além. Assim como não cantas, nem danças Prokofiev, nem sais voando, só porque te ofereceram a lua. É triste. Mas somos restringidos por limites precisos.
Os restaurantes também."
Desculpe-me chateá-lo, mas aí vão várias crônicas do Apicius:
http://openlink.br.inter.net/quinta/1odiluvioideal.htm
4 anos! Boa JB,espero outros varios anos!Abraço.
anônimo,
apicius reina soberano!
carlos,
obrigado!
abraços!
lugar assim é o que há.
igual a esse seu blog. parabéns pelos 4 anos!
Se não entendi mal, paga-se R$25 por uma cerveja mais pouca (porém boa) comida. Não me pareceu exatamente um preço "bem amigável", ainda mais para quem, na Liberdade, come e bebe com fartura por pouco mais que isso.
Estou errado?
obrigado, raq!
anônimo,
na verdade, os otoshis são repostos, se necessário.
e tem shochu do bom por preço camarada.
sinceramente, pra quem bebe bastante, não acho caro.
e é lugar pra quem bebe bastante, em minha insignificante opinião.
abraços!
Salve Júlio ... primeiramente desejo melhoras para sua mãe e gostaria de lhe parabenizar pelo aniversário do blog ... muita gente (muita mesmo) se informa e conhece lugares incríveis consultando esse bem escrito e divertido espaço ... quem não tem $ pra rasgar, foge da jabalândia e sempre corre pra cá ... continue assim ...
No que diz respeito a este post, algo me deixou intrigado e com receio de ir conhecer o local indicado ... não há como um karaoke não ser, no mínimo, irritante ... tenho a impressão (a 3ª foto entrega) que a paixão lhe deixou cego, ou melhor, surdo ...
Abraço e obrigado pelas sempre certeiras indicações ...
Acabou?
Vendeu o Sinhá e acabou?
Eu já sabia. Eu sempre soube.
Talvez nem você saiba. Talvez seja inconsciente em você.
Toda sua agressividade, toda sua honra e toda sua ética visavam levar clientes para seu restaurante. No fundo, tratava-se de contar tostões. Ganhar dinheiro.
Repito, talvez nem você soubesse.
Mas eu sempre soube, desde que li aquela declaração sua, reputando-a erradamente ao Schopenhauer, de que para ocupar o local dos caras de cima era preciso ocupá-lo à força.
Afinal de contas, como um cara que já teve um restaurante "gastronômico" e pretencioso, poderia se transformar em algúem que abomina esse tipo de coisa? E se o tal restaurante em vez de falir tivesse dado certo?
Bem, não interessa. Você já vendeu seu Sinhá, e diferentemente da grande maioria dos mortais, que tem que trabalhar todo dia, você pode passar seus dias vagabundeando e bebendo por aí.
Mas que fique bem claro, eu sempre soube. Sem interesses, sem posts no Blog.
Bom, melhor para todos assim.
thiago,
o blog não tem nada a ver com o sinhá.
tanto que, desde o post da venda do restaurante, já publiquei SETE novos textos.
só não postei mais porque - como escrevi nos dois últimos posts - tenho cuidado de minha mãe, que está com câncer, no hospital.
de forma que discordo frontalmente de seu comentário "pretencioso".
esse post, onde comentou, é comemorativo de quatro anos desse espaço que pretendo manter por muito tempo, ainda, para seu completo desgosto.
como opção, você pode não ler, se quiser.
de qualquer maneira, sua "opinião" tá registrada.
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