terça-feira, 25 de outubro de 2011

Sobre tabernas, sanduíches, sachês e O quindim


Vivemos, em São Paulo, época estranha, onde encontramos novos bares e restaurantes bem caros travestidos de tascas e tabernas, que originalmente são pequenos comércios, com propostas simpáticas, em conta.

Até suposto Izakaya na afetadíssima Vila Nova Conceição já foi encontrado...

E da-lhe, da-lhe Seo Ipe Moraes, proprietário da abominável Adega Santiago, todo pimpão, na capa do Guia da Folha dessa semana, divulgando sua nova e nada em conta casa, localizada onde ficava o saudoso Bar do Léo, esse sim patrimônio pinheirense, que a mídia nunca deu bola. É que jornalista gosta de novidade, né? Não precisa ser boa, não. Basta ter uma estórinha boba criada por acessória de imprensa bem relacionada com uma ou duas blogueiras boa vida, que logo o círculo da hucklândia já se fecha.

A hucklândia - pra quem não sabe - é como chamo esse tal mundinho dito gastronômico, composto por alguns chefs, empresários, jornalistas, blogueiras e até twitteiros toscos onde o que vale é o falso elogio, o tapinha nas costas e onde não tem espaço para críticas negativas. Tudo é caetanicamente lindo, divino e maravilhoso na super jeca hucklândia.


Mas, deixemos essas coisas desagradáveis de lado, por um instante, pra falar de um comércio naturalmente desprezado pela mídia, mas que tem seu valor, especialmente no bairro de Pinheiros.

Há 22 anos, uma família, de origem japonesa, comanda modesto negócio restaurador, localizado na Fradique Coutinho, altura do número 527. Lá fazem pães, doces, sanduíches, omeletes, pratos feitos e mais uns troços. Até reconfortante e por vezes necessária água de coco servem, por lá.

Todo dia - mesmo nos mais quentes - tem saborosa sopa, que sempre muda de sabor. Apenas às quartas, pinta a de ervilha. Mas vá cedo. Aliás, o lugar, com cara de boteco, parece feito para ir durante o dia. Inclusive a cerveja é invariavelmente geladíssima, indico muito.

Burger alto, caseiro, dentro do pão feito lá mesmo. Muito mais gostoso que esses burgers ordinários bem fininhos, feitos nos Oregons da vida. E três vezes mais barato. Afinal, quem não tá com o saco na lua de pagar quase vinte pratas por um sanduíche qualquer? Nem entrarei no mérito de lugares cretinos como o General Prime, que é muito macumba pra turista. Imagino que a amiga leitora, dona de casa, não frequente aquele tipo de antro, não.

Foco, JB, porra!

Bem, voltando...Coxinha gostosa, com recheio bem temperado, pode ser pedida, como entrada. Tem outros salgados, pra quem gosta de emoções mais fortes. Ainda não arrisquei, mas carrego comigo a impressão de que esse dia chegará.

Além do burger, há várias opções de sanduíches para o pinheirense se aventurar. Provei o misto quente, que veio com quatro fatias de queijo prato, três de presunto gordo, dentro de gostoso, crocante e quente pão francês feito na casa, obviamente. Síntese de equilíbrio.

A gostosa pimenta caseira combina com tudo, e aqui sachê de catchup/mostarda não tem vez, não, pra felicidade plena da freguesia, que usa e abusa das bisnagas reinantes. Aliás, como odeio sachê! Maldito e trabalhoso pedaço de plástico que nem higiênico é, já que muitos metem a boca de dia no mesmo canto onde ratos fazem a festa e baratas dançam iê iê iê, na calada da noite.

Foco, JB, porra! Esse espaço é pra escrever sobre comida.

RANGO!

Enfim...

Até aí, tudo gostoso, caseiro e autêntico, mas nada espetacular, que valha longa viagem, é mais para o pinheirense mesmo, que vê seus bons bares agonizarem e fecharem, um a um...

Só que provei o quindim...

Puta que pariu!

Um espetáculo esplendoroso, a versão deles. Na verdade, é um clássico bem feito - o que garanto a vocês que não é fácil fazer - mas há tempos não encontrava um assim, beirando a perfeição! Doce que vale a visita, esteja você onde estiver.


Café? Melhor não pedir, não. E leve esse parágrafo a sério, por favor.

O que realmente importa é que pra cada taberna genérica de boutique, pra cada tasca tosca que abrir na cidade, já temos inúmeros comércios simples, autênticos, tocados pelos donos, praticamente em todos bairros da cidade. Ainda somos maioria!

Inclusive espanhóis e portugueses, como os excelentes Maripili e Tonel, ambos devidamente já divulgados, aqui no blog.

E você, o que prefere? Um bar/restaurante caríssimo, inspirado em lugares simples, mas que de simples não tem nada, ou comércios genuínos, autênticos e acessíveis, geralmente tocados por famílias?

Eu fico com a segunda opção, onde como melhor, gasto menos, não passo nervoso e vou vestido como quero, de boa.

Basta de neo-jeca afetação!

Até!

31 comentários:

Aline Gunsett, Gabriela Morateli e Tatiane Silva disse...

Muito bom JB! Acompanhamos seu blog sempre. Parabéns! Tatiane

Dalmo disse...

Prezado JB
Mais uma vez belo e coerente texto; eu fico com a segunda opção também e concordo plenamente com suas observações a respeito da midía.

Felizmente temos blogs independentes, como o seu para ler.

Abraços

Dalmo

Sweetie B. disse...

Estou considerando escrever minha monografia no próximo ano investigando o processo do "jornalismo" gastronômico em São Paulo. Você seria uma fonte valiosa. Consideraria me ajudar com entrevistas e indicações no ano que vem?

jb disse...

valeu, tatiane!

obrigado, dalmo!

sim, sweetie, consideraria.

abraços!

Paulada Neles! disse...

boa dica! trabalho aqui perto e passo em frente sempre mas nunca sentei no referido comércio!

@___regis disse...

Concordo em termos. Prefiro comida boa e bem feita, não importa se num boteco ou num castelo. Qualidade baixa e serviço ruim não é exclusividade de nenhuma categoria de estabelecimento comercial, sendo democraticamente encontrado em todas as esferas comerciais. A diferença é que o ruim e barato é menos mal do que ruim e caro. Disto não posso discordar.

Anônimo disse...

deu fome!!

luridi disse...

Na minha época de rebelde sem causa, adorava desrosquear bisnagas.
Luridi

Anônimo disse...

Eu também odeio sachê mais do que qualquer coisa nesse mundo....

Ludo Fiori disse...

Esse Ipe Moraes deveria ser detido, junto com o Andre Lima (Deco) e a tiurminha da Bras. Quais crimes cometeram? Ah, muitos. E ha muito tempo.
Trabalham com margens de lucro impraticaveis, absoluta falta de padrao e politicas duvidosas que promovem um tal de Felipe Greco a chef da cia de comercio e subordinam o nosso amigo Ederson. E tambem as mutretas com a AMBEV que certamente mereciam uma investigacao minuciosa da policia federal. Todos os socios da cia de comercio estao cagandoeandando para a falta de padrao dos produtos la comercializados. Sei disso pois os conheco bem. Eles estao leiloando a companhia. Quem da mais? Acho que eh o Deco! Ou o Felipe? Nao interessa. O que importa eh que esse moleque eh incapaz de ser chef do Ederson Emilio. Desculpe a insistência no assunto Julio, mas eh algo que me incomoda ha tempos. Me incomodava desde os tempos em que la trampei. Pronto, falei. Abraco

Ludo Fiori disse...

Ah, ontem te vi na Yoka mandando um pastel.
Nao te abordei pelo fato de estar deveras concentrado naquele travesseiro encantado.
Nem sei qual pastel vc comia, mas tenho certeza que estava bom.
Abraco
Ludo

jb disse...

ô, ludo!

tudo bem?

sou louco por aquele pastel, rapaz!

mas, da próxima vez, dê um oi, porra!

abraço!

Caio V. Z. C. disse...

Coincidentemente ou não, jantei ontem duas belas fogazzas (uma de escarola especialmente boa) em uma casa aonde não ia há um certo tempo, na Água Rasa. Comércio local, pequeno, tudo feito ali e na hora e coisas que já não se vêem tão facilmente por aqui em SP (como porção de língua, por exemplo), nos moldes do seu post, JB.

Um abraço

Caio V.

ana maria disse...

Ô Caio, divide o endereço aí, sou da ZL, esquecidona, e não é fácil achar um lugar decente, bom e barato, conta aí.
Abraços.

Ana Maria

Aristoteles Camara disse...

Caro JB,

Semana passada, fui a São Paulo conhecer o Shin Zushi. Tive que ir na hora do almoço, mas eles tiveram a gentileza se me servir o omakase, mesmo não tendo ligado antes.

Como sou do Recife, eles me perguntaram como havia conhecido o lugar, ao que respondi "dica do Boteco do JB"!

O chef Ken abriu um sorriso dizendo "O julinho é um amigo. Vem aqui umas duas vezes por mês".

O almoço foi fantástico!

Obrigado pelo seu trabalho. Graças a vc, já conheci pérolas como o Shin Zushi e o Epice, onde já fui umas quinze vezes!

Abs

Fábio disse...

Fala JB!

Ficou sabendo da última? O Yamashita vai sair do Shin Zushi logo menos..vou aproveitar para fazer a última refeição com ele na semana que vem!

Abs.

Wolf disse...

Jb, hoje foi o último dia do Smoky Jô. Parece que o proprietário aumentou MUITO o aluguel e não restou opção. Acho que o lugar merece um post em homenagem, não? Abs!

jb disse...

aristóteles e fábio,

tudo bem?

soube da saída do chefe e pretendo prestigia-lo pela última vez, nesse grande restaurante, assim que conseguir!

abraços!

Caio V. Z. C. disse...

A casa da fogazza a que me refiro fica na rua Alto Rio Novo, 137 (pesquisei no google maps então pode haver algum erro.... basta descer até o fim a rua Atalaia Velha, travessa da Sapopemba altura do 1100). Acabaram de abrir uma na esquina de cima, mas pelo que me disseram não é do mesmo dono e, como nunca comi lá, não posso opinar.

Um abraço

Caio V.

jb disse...

que pena, wolf!

nem tive oportunidade de me despedir!

liane disse...

cararcas!!!!sempre acompanho seu blog e sinceramente esse texto tem tudo haver com o que sempre busquei :PAPO DE BETECO.Faz tempo que não escuto essa palavra:TABERNA.Tem uns dois meses mais ou menos que meu marido junto com uns malucos que freguentam nosso bar...boteco...resolveram mudar o nome da casa ...e colocaram a partir desse dia TABERNA DO ZULU. O site passou a ser www.tabernadozulu.com Houve muita critica pois muitos diziam que TABERNA não se usava mais.E sabe qual foi a resposta do Zulu?...pois agora com mais razão continuara sendo Taberna do Zulu.

liane disse...

a melhor fogazza esta na Praia Grande na fogazzaria do Zulu que agora é taberna do zulu tem endereço no site.

Thiago Carvalho disse...

Júlio, desculpe fugir do assunto. É que estive ontem no Epice, com algum atraso, após ter lido a sua resenha aqui já algum tempo. Puta dica. Puta rango. A barriga de porco tava coisa de louco. Grande abraço.

mdv disse...

J, hoje comi num dos lugares que vc recomendou e que adoro, sempre te agradeço pela dica. Mas, pela primeira vez, o prato estava sem graça, correto mas insosso - já comi antes, e sempre foi de se lamber os beiços. E o lugar é ótimo, tanto que nem vou mencioná-lo. Me veio à cabeça como deve ser insuportavelmente difícil manter sempre o mesmo (altíssimo) nível (além de chegar a ele etc.), em tantas refeições, todos os dias etc. Profissão ingrata a sua, mas muito nobre, abrção

Anônimo disse...

Ola,

Você ja me deu grandes dicas de lugares absolutamente fora de circuito, estando, quanto a isto, muito grato.
Agora, quero simplesmente me solidarizar com o seu problema familiar relacionado à saúde da sua mãe, desejando todo o sucesso nessa batalha.
Estou esperando, como sempre, novos posts no seu blog, mas admiro sua consistente opção de priorizar estar junto da sua mãe.
Parabéns pela sua postura perante os desafios da vida.

Pedro Oliveira

sinara rodrigues disse...

puta que pariu.. que blog.. pena nao ter conhecido vcs aqui em floripa.. se era dono de restaurante sei que perdi uma bela chance de comer bem..se não era, perdi a chance de ser amiga e convidada pra comer na casa de vcs.. se não sabe cozinhar tem alguma coisa errada.. adoreiiiiiiiiiiiiiiii sucesso em sei la oque vc faça.. sinara

Sergio Faria disse...

Opa, finalmente alguém de dentro, alguém que trabalhou lá nos oferece seu testemunho sobre as merdas da Companhia (nada) Tradicional do Comércio, compradora de blogueiros.

Como consumidor, sempre achei Pirajá, Astor, Bráz, aquela enganação de Lanchonete da Cidade, a porcaria do Origina, a roubalheira na espuma do chope e a exploração de sambistas desaviados, tudo isso deplorável.

Agora você comprova. Parabéns, Fiori. Pêsames a todas essas casas meramente promocenográficas, macumbas pra turista e sem alma nem qualidade.

ludo fiori disse...

Sergio, os donos (deco, edgard, mario, fernando, sergio) estao realmente cagandoeandando para tudo o que dizem sobre a cia. Eles faturam milhoes e riem sobre as criticas recebidas, inclusive as feitas por habitues da casa. O escritorio eh uma piada, publicitarios que nao tem cultura gastronomica encarregados de batizar os pratos. Dai os nomes absurdos dados aos pratos. Afe, fui tarde. Abraco sergio

Anônimo disse...

JB,

Entrei aqui para escrever uma mensagem mas vejo que o Pedro Oliveira escreveu algo 100% igual ao que eu havia pensado. Força para você e sua família.

Abs
Márcio

Fabio Peixoto disse...

JB,

Estou navegando hoje há tantas horas, que nem me lembro como vim parar no seu blogue. Mas o importante é que aportei e, sem dúvida, vou ancorar por aqui.

Morava na Vila Madalena e deixei São Paulo há quatro meses. De tempos em tempos, repasso os motivos que me levaram a tal decisão. Seu perfeito diagnóstico de "hucklandização", não só do bairro como de toda a cidade, só fez agregar mais algumas certezas.

Espero que seus novos caminhos te levem aonde deseja chegar. E principalmente, que a boa saúde sempre te acompanhe nessa jornada.

Força! Abraços

Anônimo disse...

e digo mais, julim!!!! uma das top 10 coxinhas dessa sampa e' la' do jorgeeee....... o duro e' decidir, com ou sem catupa? na duvida prove as duas!!!! confira!!!!
beijo, vizim