terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Dona Nice

Foram três meses de estadia no Seo Camilo, onde sempre estiveram presentes agonia, angústia e outros males, que foram combatidos diariamente com bom humor, única arma que se mostrou eficaz nesses dias terríveis, que terminaram exatamente na hora da Ave Maria, de uma segunda-feira nublada.

Após o óbito, veio a sensação de derrota com o óbvio alívio, pelo término do sofrimento desumano que ela passou.

Mas levarei comigo algumas poucas e boas cenas hospitalares...

Como a dela se dirigindo à uma enfermeira do estabelecimento, com a qual ela não ia muito com a cara, com os seguintes dizeres: "Olha, sei que estou doente e que aqui não posso fazer nada, mas você fique bem esperta lá fora, viu? Tenho gente minha na rua..."

Irresistível, a Dona Nice.

Outro dia, logo após ser diagnotiscada, ao ser abordada pela psicóloga do hospital, com eufemismos estúpidos, reagiu imediatamente: "Menina, sei que não tenho um tumorzinho do mal; estou com CÂNCER, e não sairei daqui. Vou MORRER! Por que fala desse jeito? Não sou criança! Vai tomar no seu cu!"

Nenhuma das duas profissionais voltou ao quarto. Mas eu me diverti muito. E me reconheci, em seu senso de humor, que aliás é bem peculiar em minha família.

Claro que ela também se divertiu nessas situações. A conheço bem e - faço questão de ressaltar - me reconheço nela.

Outro momento histórico - e triunfal! - se deu quando driblamos a segurança hospitalar para ela tomar tranquilo banho de sol, na escadaria da igreja ao lado. Levamos juntos, patética e monumental bronca da chefe da segurança. Foda-se! Faríamos tudo de novo.

Fato é que ela, apesar de ter sido paciente obediente e exemplar, no fundo sabia que morreria. E isso permitiu que se despedisse de seus mais queridos, à sua maneira. Foi bonito, comovente. Se eu pudesse escolher, morreria de maneira parecida, pois tem uma meia dúzia de pessoas que prezo muito, e gostaria de me despedir decentemente, assim como ela fez.

Pra mim - ateu convicto e incorrigível - morreu, acabou. E que ninguém me encha com teses opostas. O que fica, o que deve ser celebrado, nesse caso, é a vida dela, que traz inúmeras lembranças excelentes, muito além do hospital.

Guardarei para sempre, na memória, o cheiro da refoga de seu arroz e feijão, que foi minha maior inspiração para abrir um restaurante de comida caseira, tempos depois.

E a educação livre ao extremo, pela qual sempre fiz minhas escolhas, sem interferência alguma, muitas vezes pagando por isso, pelos meus próprios erros.

Educação que ela deu com meu queridíssimo mestre e pai - falecido em 97, aos 41 anos - com quem aprendi a me armar desde cedo. Sobre ele, escrevo outra hora, se tiver inspiração e tempo, pois os homens da família morrem cedo.

O que não falta é história boa, a seu respeito!

Curiosamente, numa coincidência infeliz, ele foi nessa no mesmo hospital de Dona Nice. E, apesar do carinho e profissionalismo de toda equipe de médicos e enfermeiras, não quero nunca mais nem passar na frente desse logradouro.

Enfim...

Evito falar de mim e dos outros. Prefiro discutir sobre coisas, sobre os processos, quem me conhece sabe que isso é puríssima verdade.

Mas além da óbvia satisfação que devo aos queridos leitores (pelo longo sumiço) queria registrar de alguma maneira o amor, máximo amor por aquela que tenho como a melhor mãe do mundo.

Talvez essa maneira que escolhi para me expressar seja um tanto desastrosa, mas nunca fui muito hábil com as palavras.

E não reparem se eu não pintar no boteco por mais alguns dias.

É que ultimamente não tenho achado muita graça em porra nenhuma.

"Tome tento, menino!" - certamente foi a frase que mais ouvi, em minha insignificante e medíocre vida.

Estou tentando, mãe. Tá cada vez mais difícil, mas quem sabe um dia consigo? Bons exemplos em casa nunca me faltaram!

52 comentários:

Dalmo disse...

Bela homenagem Seo Julio,
Abraços.
Dalmo

jb disse...

valeu, dalmo!

abraço!

Ana disse...

porra, julio. que lindo. dia desses vamos combinar de você ensinar uma ou duas coisas pro chico, porque eu ficaria deveras feliz com uma homenagem dessas.
beijo imenso

jb disse...

claro!

marquemos, sim!

será uma honra!

beijão!

Maria disse...

Julio, habilidade com as palavras tens e muita; do contrário nãos seria tão prazeroso ler seu blog. Fiquei feliz ao encontrar aqui uma homenagem como essa e por ver que Dona Nice deixou para você a melhor herança que alguém pode nos deixar.
Beijo.
(Ah, e por falar em mãe, por acaso a minha, que nem em SP mora, outro dia almoçou no Sinhá e adorou. Só senti não estar lá com ela:)

leila disse...

abraço

Ricardo Reno disse...

Oi Julio,

Eu tambem como ateu convicto sempre lembro das palavras de Epicuro:"A morte nao nos concerne pois quando aqui estamos ela nao nos alcanca e quando ela aqui estiver nao mais estaremos."

Abracos fraternos

jb disse...

maria,

obrigado.

leila,

abraço.

ricardo,

bebamos!

Jamil P. disse...

Belíssimo texto;
minhas condolências, JB.

jb disse...

obrigado, meu caro.

Ana Franco disse...

Julio querido,

Lindas palavras, sem pieguice, sem metafísica, sem bla bla bla. Só amor e admiração.

Com carinho,

Ana

manuchxa disse...

<3

Anônimo disse...

Querido JB
Meus sinceros sentimentos.
Fort abraço
Luridi

Mario Netto disse...

Meus sentimentos ,JB.

Anônimo disse...

Lamento ... profundamente......sei o q é viver um tempo dentro de hospital.....sentimentos a toda família ! Marcio

jb disse...

valeu, pessoal!

Alexandre (Adegão,O) disse...

Uma homenagem muito bacana, Seo Julio!! Tive essa sensação de derrota, quando perdi a minha mãe, quando ela viajou ao Japão. Quando a visitei, ela estava normal, mandando meio mundo tomar no cu e ainda: "Veste essa camisa direito!!". Digamos que estava de férias numa cama de hospital. Mas sei que no fundo, fazia o inferno para transparecer que estava bem.
Só me resta, bater um papo de vez em quando com a velha e cuidar da minha saúde. Não tô muito a fim de ouvir bronca, quando partir dessa.
Cuide da sua saúde também, Julio. E sabe que a Adega de Sake, é também a sua casa, meu querido irmão!!
Abraços.

jb disse...

valeu, adegão!

Anônimo disse...

beijo, vizinho!

jb disse...

beijo!

Anônimo disse...

Porra Jb! meus mais sinceros votos.Pelo menos ela descançou.
abs
Renato Carioni

Thiago Carvalho disse...

Lindo texto, Júlio.
Meus sinceros sentimentos.
Memórias como estas que você contou aqui são o que vão manter Dona Nice sempre viva.

Grande abraço.

Albieri disse...

Puta texto! Puta admiração!
Breve ausência, como escreveria você, será prontamente entendida. Mas continuaremos passando de tempos em tempos para ver se o boteco reabriu.

jb disse...

carioni,

valeu!

thiago,

obrigado.

albieri,

logo o boteco reabre.

tá fechado, por luto.

abraços!

mdv disse...

Força. Forte abraço, M

jb disse...

valeu, mdv!

jordi disse...

Caro Julio

Sei que nada que possamos dizer nestes momentos vai resolver nada, mas, mesmo assim a gente tenta da melhor forma apoiar nos piores momentos àqueles que consideramos
Com esta intenção é que lhe mando esta mensagem

Deixo duas idéias que me parecem úteis para esta situação “de merda”


Já faz muito tempo, em um pais do qual se perdeu até o endereço viveu um rei muito poderoso, que ao chegar ao máximo do seu poder percebeu que às vezes ficava sem saber o que pensar o como enfrentar algumas das situações que a vida nos apresenta

Sendo um rei poderoso decidiu oferecer una enorme recompensa à pessoa que fosse capaz de lhe oferecer um pensamento que fosse adequado em todas as circunstâncias.

Nos melhores e nos piores momentos da vida
Na riqueza e na pobreza
Na sorte e na desgraça
Na saúde e na doença

Passaram-se os meses e ninguém apareceu com uma boa idéia, até que um bom dia apareceu um velhinho que sussurrou umas poucas palavras ao rei, este, refletiu por uns momentos e chamou ao mestre do tesouro do reino e pediu que o velhinho recebesse a recompensa prometida, e em dobro.

O resto dos sábios e a corte inteira solicitaram ao rei que compartilhasse com eles a idéia que o velhinho tinha transmitido a ele
O rei então lhes disse:

“ISSO QUE VC ESTÁ SENTINDO AGORA VAI PASSAR”

Estou totalmente convicto de que essas são realmente palavras sabias e com o tempo a vida me apresentou com outra realidade que conecta totalmente com esta frase

Mesmo os sentimentos mais fortes como a dor pela perda dos parentes mais próximos passa, e depois conseguimos lembrara e perceber todas as boas coisas que vivemos e sentimos com os nossos seres mais queridos

E essa lembrança sim que dura para sempre mais enquanto vivamos, e é graças a essas lembranças que mesmo com o passar do tempo continuaremos a desfrutar todo o bem que vivemos e recebemos com os nossos seres mais queridos, mesmo que, lamentavelmente, eles não estejam conosco

Na esperança de não ter lhe amolado muito se despede um agradecido admirador do seu blog e trabalho

Jorge

jb disse...

ô, jorge!

que amolação, que nada!

valeu!

abraço!

juliokon disse...

Belo texto e forma de encarar a vida xará. Tb me orgulho da educação e do exemplo que tive em casa. Por isso carrego a certeza de que tudo de ruim que me tornei foi por conta própria.

jb disse...

na mosca, xará!

abraço!

Anderson W disse...

Caro JB Bacana a Homenagem àquela que é única em tua vida. Que ela descançe em paz, e quanto ao Buteco...Foda-se!!!! Reabra-o na hora em que julgares necessário, e se achar também que não deve retornar todos entenderão, não se preocupe com isso! Apenas desejo à voce que o tempo agora passe na velocidade da luz, pois só isso, "ameniza" o sentimento da perda, nada mais!!! Sei do que estou falando! Força Irmão!!!!!

Ludo Fiori disse...

O querido, bacana o teu reconhecimento pela mae que tu teve.
Isso eh o que mais importa.
E para aqueles que nao o fizeram em tempo, durmam o sono que merecem.
Achei do caralho voce recordar sua mae atraves de coisas banais, como a refoga do alho e cebola.
Essa memoria olfativa me transporta ate hoje pra casa da minha vo.
Abraco brother.
Viva Dona Nice
Ludo

Anônimo disse...

além do texto em homenagem (que todos já fizeram questão de elogiar), não pude deixar de notar a questão da idade. pelas minhas medíocres contas, seu pai (e provavelmente sua mãe) foi pai ainda menino. confere?

Fernando Amaral disse...

Abraço. E tome tento, que eu pago a primeira rodada.

Anônimo disse...

Tudo de bom para você, JB.
Reynaldo Carvalho

jb disse...

valeu, pessoal!

obrigado mesmo, de coração.

e, pra quem perguntou, meus pais se conheceram em janeiro, se casaram em novembro e eu nasci em dezembro. tudo isso em 1973.

quando nasci, minha mãe tinha 21 e meu pai 17 primaveras completas.

abraços!

Anônimo disse...

meus sentimentos. força e saude!
abs

mdv disse...

J, eu tinha feito a conta e estranhado. Que maravilha deve ser ter um pai só 17 anos mais velho! Que pecado que ele tenha morrido tão cedo, tb por este motivo - sua mãe tb se foi cedo demais, força e abraço M

jb disse...

sim.

meu pai morreu com 41 (homens da minha família morrem BEM cedo) e minha mãe com 59, jovem, também.

enquanto durou, foi bom.

abraço!

Luiz disse...

Caro, sinto muito. Força aí!
Abraço

jb disse...

valeu, luiz!

abraço!

Anônimo disse...

Que a Terra lhe seja leve. Embora nao o conheça pessoalmente,leio o seu blog e já comi no seu restaurante, sendo que tambem gosto de suas opinioes, por isso me senti a vontade lhe desejar meus sentimentos ja que tambem tenho mae e sei o que é.Meus sentimentos e força.
Punk do suburbio

Caio V. Z. C. disse...

Belo texto, JB.

Um abraço

Caio

Daniel disse...

mestre Julio, desculpe a demora, mas passo por aqui para deixar aquele abraço e reafirmar o que você já disse: dona Nice fez um puta trabalho, o senhor é um dos raros que valem à pena nessa porra de mundo!

rbp disse...

Um brinde daqui da Holanda pra Dona Nice. Abraço, Julinho!

-- rbp

jb disse...

valeu, queridos!

abraços!

Anônimo disse...

Meus sentimentos,JB!
Alcemir

Giba disse...

JB, que sua mãe fique em paz, sei como é perder alguém que a gente ama, perdi meu pai a alguns anos, cara casca grossa e muito correto.
Mas faz parte dessa vida saber que vamos pro buraco mesmo, e também não curto essa coisa de religião, vamo que vamo!
Abraço,
Gilberto

jb disse...

obrigado, cavalheiros.

Ana Claudia disse...

É...dia 11/11/11 perdi meu pai. Sei lá se essa data quer dizer alguma coisa, mas foi o fechamento da etapa mais importante da minha vida... a primeira etapa. Agora que já sei quase tudo o que meu pai queria que eu soubesse terei que aprender a caminhar sozinha. Espero conseguir. E espero conseguir com a integridade e dignidade que ele teve até o último momento. O câncer o levou, assim como levou sua mãe. É uma doença de merda. Mas enfim... ficaram os bons momentos, os bons ensinamentos. E ficou prá gente um cara como você que sabe fazer uma puta homenagem bonita dessas.

jb disse...

um beijo, ana!

flavenrik disse...

É incrível como comida e mãe são inseparáveis. Há 8 anos perdi a minha e hoje na feira ao ver uns jilós bonitos, pensei: "Será que consigo reproduzir a farofinha de jiló que mamãe fazia? Vou tentar." E são essas lembranças inseparáveis de mãe e comida que nos tocam pra frente. Comigo é assim. Um abraço.
Flávio. (@fravenriq)